O Vale da Saudade...

Hoje, ao acordar, minha irmã e minha prima dormiam num sono tão tranquilo de dar inveja em qualquer pessoa que, como eu, levantava cedo para trabalhar. Fiquei uns minutos observando elas dormindo e lembrei de tanta coisa que já vivemos juntas.
Eu tenho 18 anos, minha prima que está lá em casa 19, e minha irmã 20. Fomos as três criadas juntas, e quando pequenas faziamos praticamente tudo juntas.
Abri o baú das recordações e fiquei lembrando da nossa infância. Ontem mesmo no almoço de dia dos pais ficamos conversando sobre isso. Sobre como era bom o tempo de nosso tempo. Às vezes dia de domingo eu e minha irmã íamos para a casa do meu avô e encontrávamos minha prima (que morava lá), e aí era brincadeira o dia inteiro.

Lembro que uma vez a gente deixou nossa falecida Biza maluquinha, rs. Era dia de Cosme e Damião, e era comum nós pegarmos doces. Daí ganhamos tantos sacos que enchemos uma bacia enorme com os doces das três. Era tanto doce que nem a gente tinha mais vontade de comer. Foi quando oferecemos maria-mole pra Biza, rs.
Ela tava sem dentadura e ficou mastigando a maria-mole o dia inteirinho. Até que algum adulto viu, foi lá e tirou a maria-mole da boca dela.

Todo fim de semana meu pai passava lá em casa e pegava eu e minha irmã para irmos pra casa do meu avô (pai dele).
Na época meus pais ainda estavam separados, então ele nos pegava todo findi. Minha prima mora na mesma casa que o meu avô, então meu pai levava a gente justamente para brincar com ela.

Um dia ela deu a idéia de brincarmos de Gato Mia. A brincadeira era assim: As três colocavam uma venda no olho e cada uma ficava com um travesseiro na mão. Tinha que ficar num quarto fechado. Aí, começavamos a falar uma pra outra "Gato Mia", e ai todas tinham que responder "Miau". Conforme se ouvia o som "miau" a gente ia até a pessoa pelo som. Só que elas duas roubavam, eu não. Depois que colocávamos a venda e pegavamos o travesseiro, elas duas tiravam a venda delas e me arrebentavam, rs. Quando acabava a brincadeira minha cabeça tava com o dobro do tamanho e latejando, rs. Só porque eu era a menorzinha elas judiavam de mim. Mas eu era honesta. Apanhava mas não tirava a venda do olho até o fim!

Não posso esquecer também das festas de família, rs. Tava todo mundo no portão conversando, e talz... Daqui a pouco começava a tocar "a dança da vassoura", quem lembra dessa música? Pronto. As duas saíam correndo pro meio da festa e se quebravam até suar. Eu como nunca soube dançar direito, ficava no canto morrendo de inveja, porque queria dançar também a "dança da vassoura" ou a "boquinha da garrafa". Hoje dou graças a Deus que eu nunca dancei, rs. Porque pelo menos não tem eu pagando mico nas fitas que ficaram das festas. O máximo que aparece é eu no canto olhando as duas disputando quem rebolava mais e com a maior cara de "deixa, eu nem queria dançar mesmo".

Até hoje sou meio esquisita pra dançar, apesar de gostar bastante. A galera fica toda me zuando. Ficam mandando eu rebolar e rodar o dedo ao mesmo tempo e eu não consigo, rs. Já tentei sozinha no banheiro, rs, mas não sai direito. O movimento sai sempre meio desengonçado. Pelo menos eu sei sambar... tem gente que nem isso sabe. Mas eu me mordo de inveja (inveja num bom sentido), dessas pessoas que vão pra festa e dançam até o chão, até cansar, até ficar pingando de suor.

Certa vez fui dormir na casa da minha prima, já devia ter uns 12 anos. Ela tinha mania de dormir ouvindo rádio. Fez uma cama pra mim no chão ao lado da cama dela. Deitei e até ai tudo bem. Só que tive insônia... E comecei a prestar atenção no que a rádio dizia: "Será mesmo que agosto é o mês do desgosto?", e aí eles começavam a contar histórias horripilantes de pessoas que perderam pessoas queridas no mês de agosto, de acidentes e coisas "Sem explicação". O pior, estávamos em agosto. Aí eles colocavam o som de um lobo uivando na rádio, e depois se ouvia uns tambores e repetia de novo as histórias de desgraça e por aí ía... Comecei a ficar com um medo danado. Arregalava o olho, puxava o lençol. Me encolia tanto que não sei como não me dei um nó. Olhei pra minha prima dormindo tão tranquila na cama e não pensei duas vezes. Peguei meu travesseiro, meu lençol e me acomodei na cama junto com ela sem ela perceber, porque ela dormia que só um urso hibernando. Só foi perceber minha presença de manhã quando acordamos. Mas o mais engraçado é que assim que eu deitei nas cama junto com ela, repentinamente o medo diminuiu. Como se ao deitar ali ela me protegesse do lobo que uivava dentro do rádio, dos tambores sinistros, e do "mês do desgosto".

É engraçado porque hoje crescemos, e tanta coisa mudou... eu que era a mais nova das três hoje sou a única que trabalha. Cada uma seguiu um rumo completamente diferente: Minha irmã informática, minha prima fisioterapia, e eu direito. Às vezes minha prima me procura e pede conselhos. Aquela, que um dia me protegeu do que eu tinha medo.
Mas tem certas coisas que não mudam nunca. Nossas conversas até de madrugada quando minha prima dorme lá em casa, mesmo sabendo que vamos acordar cedo no dia seguinte. Nossas brigas por troca de roupas, rs. Os conselhos amorosos que damos umas para as outras...

Às vezes na minha saudade tenho a impressão de que ainda continuo criança... De que logo meu pai vai me pegar pelos braços e me jogar pro alto, que meu avô vai tocar violão à tarde pra eu dormir, que vamos bincar com a biza de piq esconde sem ela saber que está brincando... Dá um nó no peito e uma vontade de voltar naquele tempo. O tempo do meu tempo. Naquela época nunca poderíamos imaginar que teriamos a mesma intimidade hoje e que nada mudou. Quer dizer, pouco mudou, porque nossa cabeça mudou muito. E nossos corpos então nem se fala. E eu sei que hoje se cada uma de nós tiver nas mãos um travesseiro e uma venda mesmo depois de 12 anos, brincaremos da mesma coisa com a mesma intensidade e rindo do mesmo jeito. A diferença é que agora... Eu também vou tirar a venda, rs...


RJ, 13/08/07.

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