Experiência...

Cheguei meia hora antes do horário previsto, porque sempre tenho esse costume mesmo em entrevistas.
Ao adentrar à recepção percebi um grupo de mais ou menos 15 pessoas já no local. Algumas estavam em pé conversando umas com as outras. Outras mais afastadas. Um homem sozinho, andava nervosamente de um lado pro outro e tinha pavor estampado no rosto. Uma menina, em pé ao lado do sofá, puxava assunto com as outras. Dei minha identidade, peguei o crachá onde lia-se "Visitante" e sentei no pequeno sofá.
Saquei da bolsa o livro que tinha vindo lendo no trem, e agora faltava pocuo para terminar. Comecei a lê-lo mas constatemente me desconcemntrava por causa da conversa da menina tagarela que estava em pé ao lado do sofá. Resolvi não lutar com a menina tagarela, e desisti de ler. Comecei a observar o comportamento das pessoas antes uma entrevista. Um homerm estava tão tranquilo, tão à vontade que mais parecia estar na praia. O outro, o nervosinho, parecia estar prestes à ser internado numa casa de repouso. A tagrela, mostrava certo nervosismo também em meio à sua tagarelice, mas um nervosismo num estágio normal. Eu também estava nervosa, mas pensei "Não tenho anda a perder". Na verdade tinha, era uma vaga ótima, a qual eu sonhava para ser meu primeiro emprego. Um emprego o qual milhões de garotas dariam a vida para ter. E o melhor, eu teria oportunidade de crescer, e conhecer muitas pessoas.

A entrevista estava marcada pra começar 10h da manhã, mas somente às 10:20h uma gorda senhora chamou todos que estavam na recepção à uma sala, a qual podiamos ler na porta "Sala de reunião".
Todos nos acomodamos, cada um em suas cadeiras e ela começou a apresentar-se. Era a Analista de RH. E tinha duias estagiárias. Uma das estagiárias era linda, a outra feia. A gorda que falava não era feia, mas também não tão linda quanto a estagiária. Era só bonita mesmo.
Logo em seguida entrarm na sala o Gerente Comercial, o Gerente Administrativo, o ex-Gerente comercial que havia sido promovido, e um outro carinha lá que não sei o que era mas devia ser gerente de alguma coisa também.

Enquanto eles falavam sobre a empresa, o cargo, o perfil do canditato à vaga e algumas coisas mais, eu viajava em tudo o que via ali. Comecei a perceber que o mundo aí fora te devora. Percebi também que só na época da idade da pedra que venciam os amis fortes. Hoje, vencem os capacitados e astutos.

Fiquei sinceramente pensando o que todas aquelas pessoas faziam ali. Qual era nossa motivação ao querer aquela vaga. Comecei a achar que o mais próximo da perfeição que o ser humano chega é numa entrevista de emprego. As pessoas vestem uma fantasia de super profissional e todas passam a ser um ser absoluitamente correto. Se perguntam na entrevista qual é o seu defeito elas dirão perfeccionismo, ou algo bem próximo a isso.

Minha vonatde era levantar e gritar que eu sou determinada, mas que as vezes sou preguiçosa sim, com licença. Mas que sou responsável e quando me mandam fazera lgo vou até o fim, mas que isso não quer dizer que eu não tenha defeitos. Tenho sim. Muitos até, Mas tento corrígi-los quando possível. Queria gritar que eu deveria ser contratada porque eu era um ser humano normal, diferente daquelas pessoas que estavam engessadas às cadeiras ao meu lado. Às vezes eu me perguntava se eles estavam tendo os mesmo pensamentos que eu, ou não, se estavam mesmo fingindo se interessar pela meia dúzia de baboseiras que o novo Gerente comercial (que aparentemente acabara de ser promovido e não sabia bulúfas do cargo), nos falava.

Foi quando a gorda do RH tocou no assunto experiência. Disse que não era necessário experiência e sim disponibilidade para aprender. Isso gostei. Acho chato essa sempresas que cobram experiência. É pura preguiça da empresa de treinar seus funcionários. tirando que a pessoa vem cheia de vício de mercado e até se adaptar à nova empresa leva um tempo.
Mas o que a gorda bonita disse depois, provou o contrário à frase que eu tinha gostado. Ela perguntou qual era a nossa experiência, dando-nos um papel em branco para ser desenvolvida uma redação. O tema? Experiência.
Minha cabeça já estava nas nuvens, e não hesitei em começar o texto. "Escrever é comigo mesma", pensei baixinho.

"Fiz cosquinha na minha irmã quando ela estava em meio à uma crise de sua doença só para ela poder rir. Certa vez tomei banho de chuva, e de madrugada senti dor nos pulmões. Acordei chorando e minha mãe deitando do meu lado, fez carinho em minha cabeça me acalmando até eu dormir. Já fui traída muitas vezes. Já perdoei algumas delas. Já fui perdoada também. Já desperdicei um talento, e descobri outros.
Já esquecei de dar feliz aniversário à alguém que eu amava muito, mas me desculpei e dei um "atrasado". Já ganhei um presente no meu aniversário que eu queria muito. Já ganhei coisas que nãogostei, mas recebi com um belo sosrriso no rosto. Nunca ganhei uma festa surpresa. Tenho muito medo de morrer e não ganhar uma nunca. Também não tenho filhos. Tenho medo de não tê-los. Quero quatro na verdade.
Talvez você não me contrate porque eu quero ter quatro filhos, e esse não é um bom perfil para uma executiva de sucesso. Ou talvez você me contrate porque alguém que quer ter quatro filhos precisa começar a ganhar dinheiro cedo e fazer uma poupança. Seja do jeito que for, acho que é muito mais interessante ter quatro filhos que me amem, do que ser uma executiva de sucesso.

Sabe uma vez eu quebrei o braço, às 22h da noite, pulando a piscina da minha casa. Minha mãe, trabalhava costurando, e foi exatamente no momento que ela estava saindo da máquina. Ela ficou amarela quando viu que meu braço tinha virado um "S". Quando chegou no hospital e os médicos colocavam meu braço no lugar, ela desmaiou. Sabem, eu amo minha mãe. Talvez isso não importe pra vocês, mas importa muito pra mim.

Quando era pequena eu bebia muita água da bica, porque eu tinha preguiça de subir pra beber a da geladeira na casa do meu avô. É tem mais isso, eu sou preguiiçosa às vezes. Mas além de preguiçosa, sou responsável. E acho que foi meu lado responsável que me trouxe aqui hoje. Acho que é meu lado responsável, que me faz procurar emprego todos os dias. Acho que meu lado responsável é o "responsável" pela minha incessante bsuca de ser alguém melhor. Alguém melhor não só profissionalemnte, mas alguém melhor com as pessoas.

Quase todos os dias eu faço compras pra minha tia. Ela tem 80 anos. O mercadinho é bem do lado da casa dela, mas ela não pode ir lá, ou não gosta, não sei... nunca perguntei. Às vezes eu estou atrasada para algum compromisso ou pra faculdade, e ela me pede para ir lá. Eu me atraso, mas raramente nego. E quando nego me sinto mal. Minha recompensa é ver a cara de felicidade que ela faz quando eu chego com as "compras", e uns trocadinhos que ela me dá que só dão pra comprar bala e nada mais. Na maioria das vezes as sacolas só contém açúcar, papel higiênico, café, biscoistos. Mas ela recebe como se fossem presentes de Natal. Ela andou reclamando que eu tenho ido em entrevistas de emprego e que logo logo quando eu trabalhar ela vai perder a secretária. É o preço que pagamos por viver num mundo capitalista.
Estou escrevendo um livro da vida dela. Não sei se vai ser publicado um dia. Não sei nem mesmo se alguém um dia vai chegar a lê-lo, Não sei nem mesmo se minha tia vai morrer antes que eu termine. O que eu sei, é que tenho que sonhar. E acreditar que o extraordinário é possível.

Uma vez eu fui assaltada por um anão. Outra vez eu deixei meu celular cair na poça d'água. Eu já tive uma redação minha incluida em um livro. Eu já me apaixonei por pessoas que nunca conheci.
uma vez eu fiz uma pinta de lápis no rosto pra sair porque eu achava chic. Já briguei com minha família e já planejei fugir de casa. Já admirei pessoas incríveis que morreram.

Uma vez fui ao cemitério pro enterro de uma amiga da minha mãe e chorei vendo as fotos dos mortos em suas lápides. E imaginando as lápides das pessoas que amo. Nesse dia pensei muito no meu avô, e assim que voltei do enterro o abracei, disse que o amava, e passei a tarde toda com ele. Ele ficou meio desconfiado, eu diria até meio constrangido, não somos muito acostumados a dizer que nos amamos, mas não importa, mesmo assim eu disse.

E já acordei de madrugada pra orar antes de ir pra escola. Eu já tive crise de sonambulismo. Ah! eu tenho terror noturno. Não posso dormir no completo escuro. Mas isso tem melhorado.

Já vivi tanta coisa. Mesmo com esses poucos dezoito anos. Talvez seja por isso que vocês podem, porventura achar que eu tenho pouca experiência, porque eu só tenho dezoito anos.
Talvez vocês estejam achando que eu sou uma idiota que fez uma redação sem sentido e acabou de arruinar qualquer possibilidade de ficar com a vaga. Talvez eu tenha arruinado mesmo. Mas pelo menos, mostrei à vocês que em entrevistas de emprego ainda existem seres humanos normais. Com qualidades sim, mas com defeitos também. Certa vez li que "[..] até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, ninguém sabe qual defeito sustenta nosso edifício inteiro".

Eu já vivi tudo isso, e mesmo assim, vocês ainda podem me julgar sem experiência, ou sem capacidade para ocupar a vaga. E ai eu me pergunto: Experiência, experiência... o que é experiência se a todo tempo tudo se renova?

Carolina Guimarães"

- Terminei.
- É só colocar a folha aqui e sair por aquela porta à direita.

Obedeci, apertei a mão de um dos gerentes (não me pergunte gerente de que), o que parecia ser mais simpático, e sai pela tal porta. Dentro do elevador tinha 4 homens, todos de terno. Fiquei pensando o quanto eu sou livre.
Ganhei o mundo da rua e comecei a pensar na vida. É engraçado como acontecem as coisas. Um dia você acorda e não sabe o que vai acontecer, e nesse dia coisas te surpreendem. As melhoras coisas da minha vida aconteceram de repente. Prefiro agora deixar que as coisas aconteçam simplesmente. Acho que o gerente geral da Petrobrás jamais imaginou que um dia ele ocuparia tal cargo. Me senti mais livre quando saí daquela empresa comedora de pessoas todos os dias de manhã, e que vomita essas pessoas bem cansadas no final do dia. Talvez eu vá ser uma dessas pessoas que vai ser comida. Talvez não. Deixo a vida me responder.

Carolina Guimarães.

  • Digg
  • Del.icio.us
  • StumbleUpon
  • Reddit
  • RSS
Read Comments

0 comentários: