Recordações Saudade

Hoje lembrei muito de minha infância. Ô época boa da nossa vida que a gente só percebe o quão maravilhosa era quando termina. É estranho porque dá uma saudade de coisas que nem sequer lembramos direito.

Quando eu era pequena só dormia na casa do meu avô. Nunca quis dormir na "minha casa", com minha mãe e minha irmã. Não sei porque mas sempre fui muito apegada com meu avô materno, até hoje. Eu adorava dormir lá, pra dizer a verdade até hoje gosto. Meus avós tem a mania de dormir com o rádio ligado, bem baixinho, mas no calor da madrugada, quando não há som algum lá fora, aquele volume mínimo se tornava uma coisa assombrosamente alta. Eles sempre ouviam, quer dizer, ouvem até hoje, uma rádio que eu nunca ouvi em lugar nenhum, só lá. Isso não quer dizer que eles compraram uma rádio pra eles, é que nunca vi por aí alguém ouvindo rádio Tupi. Talvez existam outros velhos que escutem. Não sei. Só sei que eu achava a coisa mais linda desse mundo. Tocava umas músicas tão lindas, umas melodias tão gostosas de ouvir. De uma eu lembro bem:

"A deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol, num dourado sonho
Vai claridade buscar"
Era na voz de Nelson Gonçalves. Eu achava a coisa mais linda de Realengo todo. E do mundo também.
- Vô?
- Oi.
- Um dia quando eu casar essa música pode tocar no meu casamento?
- Você que escolhe minha filha.
- E eu posso escolher essa?
- Pode.
- E a senhor acha que até lá eu mudo de idéia e enjoo dessa?
- Parece que acho.
Às vezes eles dois dormiam e eu continuava acordada só pra ver o que ia tocar no rádio. Tinha uma propaganda de remédio que eu nunca mais esqueci. "Se você tem dor nas costas, bico de papagaio, você precisa tomar Cloreto de Magnésio".
A voz do moço era tão linda. Eu ficava tentando imaginar a cara dele. Na minha imaginação ele era alto, dos cabelos bem lisos e pretos. E tinha covinhas (Eu amava covinhas). E devia ser atlético, nao musculoso, porque eu achava feio. E devia ter um pássaro solto no sorriso.
Eu sonhava que um dia eu ia casar com o moço da propaganda do remédio, e que ele ia cantar "A deusa da minha rua" com aquela voz linda só pra mim.
Eu dormia num colchão que ficava no chão do lado da cama dos meu avós. E amava dormir naquele colchão, ouvindo aquele rádio, com a luz do abajour iluminando meio quarto e assim não me deixando ficar com medo. Eu trocaria hoje dez camas King Size, por uma noite novamente naquele colchão. Mas uma noite naquele tempo. Eu posso dormir lá hoje. Agora se eu quiser. Tá tudo no mesmo lugar. Meu avô, minha vó, o colchão, o abajour, o rádio. Mas eu não estou no mesmo lugar. Se eu deitasse no colchão não ouviria o rádio, eu desmaiaria de cansaço. E sem dúvida procuraria dormir o mais rápido possível, porque amanhã acordo às 5h.
Eu queria uma noite com aquele sossego.
Lembro que às vezes eu e meu avô ficávamos conversando horas e horas na sala. Eu espiava o relógio e eram 3h da madrugada, mas eu não ligava. Ele me contava as histórias de como era a vida no Ceará, de como ela conheceu minha avó, de como vieram parar no Rio de Janeiro, de como ele conseguiu suportar a saudade enquanto passou 26 anos viajando pelo mundo num navio enorme, porque ele trabalhava na Petrobrás e só vinha pra casa umas três vezes por ano. Ela, minha vó, que sempre ia se encontrar com ele quando ele estava em algum porto por perto do Rio.
E a cada história meus olhos se arregalavam mais. Eu achava fascinante tudo o que ele contava. Às viagens à Dinamarca, Bélgica, Estados Unidos. As coisas que aconteceram com a minha mãe quando ela era pequena...
Quando teve a minissérie Hilda Furacão ele pedia sempre pra eu ficar na sala vendo com ele porque ele não gostava de ver sozinho. Eu devia ter uns 6 anos. E como não entendia nada, sempre dormia. Ele ficava vendo com os óculos na ponta do nariz, e acompanhando o amor de Mateus e Hilda. Depois, quando acabava, e eu já estava desmaiada no sofá, ele me pegava no colo e me levava pro meu colchãozinho.
Às vezes de sem vergonha eu fingia que estava dormindo só pra ele me levar no colo. Ele me levava rindo e sempre dizia entre os dentes: "Tu não prestas hein ximbica?". É, é assim que ele me chama até hoje.
Tinha uma música que eu ficava esperando tocar e não dormia enquanto não tocasse. O nome certo nem sei, eu chamava de "Marinheiro".
"Marinheiro, marinheiro
Marinheiro de amargura
por tua conta marinheiro
vou baixar à sepultura
As ondas batiam
e na areia rolavam
Lá se foi o marinheiro
que eu tanto amava
Amor de marinheiro
É amor de meia hora
Navio levanta o ferro
Marinheiro vai-se embora"
Eu amava aquilo. Me lembrava do meu avô, porque ele passou 26 anos viajando por aí num navio. Como aquilo era gostoso. O nome do programa que tocava as músicas mais bonitas que eu já ouvi na vida é "Recordações Saudade". E o progrma existe até hoje.
A primeira noite que vim dormir na minha casa chorei até 4h da madrugada e meu avô veio me buscar quando soube que eu tava aqui chorando. Ele veio com um facão na cintura e me levou de pijama mesmo. O facão era pra se proteger de alguma coisa ruim no caminho. Ele conversou com a minha mãe depois e a convenceu a não forçar a barra pra eu dormir em casa. Quando tivesse que ser, seria e ponto. Ela aceitou e assim aconteceu. Às vezes eu peço a ela pra dormir lá no meu vô e ela não deixa. Quase nunca ela deixa. Acho que tem medo de que eu tenha uma recaída.
Talvez a culpa seja a casa do meu avô que tem um encanto que eu nunca vi na casa de vô de ninguém, só do meu.
-Vô, o que é cadáver?
- Cadáver é o mesmo que morto, que defunto.
- Um dia o senhor vai ser cadáver?
- Vou.
- Mas vô, o senhor ainda vai viver muito tempo né?
- Muito.
- Muito quanto?
- Muito duzentos anos.
- E duzentos anos é muita coisa?
- Ô, põe coisa nisso...
- E um dia o senhor pretende morrer?
- Todo mundo pretende ximbica.
- E eu posso ir junto?
- Claro que não, você ainda é muito nova.
Ai eu comecei a fazer beicinho de choro. E pra cortar o coração do meu avô e com a maior inocência do mundo eu pedi a a ele em prantos:
-Ah vô, eu sou tão boazinha pro senhor, leva eu mais você...
Seus olhos ficaram úmidos, mas ele disfarçou. Lembro bem.
Aí eu acordei pro mundo presente. Minha estação era a próxima. Olhava para aquelas pessoas no trem sem vontade de nada. Só de voltar a ter seis anos. Às vezes a vida é bem cuel, e não nos deixa voltar nem ao menos um minutinho. "Por sorte quando chegar em casa posso abraçar meu avô e ficar um pouquinho com ele, tem gente que nem isso mais pode fazer", pensei.
É, os anos se passaram vovô. Hoje já não tenho mais seis anos, mas na minha saudade tenho impressão que continuo criança. E que você a qualquer momento vai me trazer um chocolate bem quente à noite, me deitar no sofá e ficar tocando violão até eu dormir. Tocando músicas lindas, de um jeito que só você e o Nelson Gonçalves sabiam tocar.
Foi você que me ensinou a ternura da vida, meu avô querido. Um dia, te prometo que eu vou fazer o mesmo com meus filhos. E se eu não tiver tempo, vou ensinar meu pai e minha mãe, para ele fazerem, porque a vida sem ternura não é lá grande coisa.
Naquele tempo, no tempo de nosso tempo, eu não sabia que os anos se passariam e hoje não teríamos mais tempo de fazer o que pra mim mais importava na vida durante minha infância: Sentar no sofá bem de noitinha e ouvir suas histórias fascinantes.
E ele sempre dizia que eu nunca ia esquecer nada daquilo, pro resto da minha vida todinha. Não sei porque ele dava tanta trela à uma pirralha de 6 anos. Mas sabem, acho que ele tinha toda razão, eu nunca vou esquecer mesmo. Hoje tenho consciência de que ele vai morrer, todo mundo morre. Naquela época doía como mil facas cortando meu peito pensar na idéia de que meu avô um dia iria morrer. Doze anod se passaram, e é impressionante. Continua doendo do mesmo jeito.
Carolina Guimarães.

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